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domingo, 16 de maio de 2010

sussurros





Sussurros

Morava em um chalé de um verde muito escuro, na Guararapes,186, com uma cozinha de piso vermelho, meio rachado. Para chegar à cozinha, a partir da rua, subia-se dois degraus, e vindo da sala, era preciso descer um outro degrau. Estes degraus que separavam a cozinha da rua ou da sala eram meus lugares preferidos de brincar, era para ali que eu carregava as minhas coisas e brinquedos. Dali, daqueles degraus, eu olhava o que acontecia na cozinha e marcava, pelo desenho móvel do sol no piso, o meu lugar de ficar nos dias frios e úmidos de Pelotas.

A cozinha era grande e alta ou pelo menos assim me parecia naquela época em que eu ainda não sabia ler como os outros liam.

Nós tínhamos nesta cozinha duas mesas: uma bem grande, posta bem no centro do espaço e ladeada de cadeiras e outra um pouco menor mais escura, com uma só cadeira. A mesa grande e branca que era onde se preparavam e serviam as refeições, dali vinham cheiros e barulhos fortes, de cebola picada, de feijão sendo escolhido, de carne sendo batida na tábua para amaciar.

Na outra mesa, era onde se preparavam, em barulhos miúdos, de páginas sendo folheadas e o raspar da ponta da caneta, os estudos finais de minha mãe. Não se via nada quando ela fechava os cadernos ao final do dia.

Talvez pela escolha de brincar no sol, sobre o piso vermelho, que me deixava abaixo dos tampos das mesas, a minha memória de ouvir o folhear das páginas e sentir o cheiro do nanquim é anterior ao tempo em que alcancei com o olhar o alto da mesa de trabalho da minha mãe.

Em razão dos estudos e por prazer, os cadernos e os livros ocupavam um grande espaço de tempo da minha mãe, da minha irmã mais velha e da minha avó. Cada uma de um jeito ou com um porquê retirava-se para um mundo que me era interdito.

Eu enjoada e enjoando vivia pedindo que lessem pra mim ou que me emprestassem as canetas e os livros.

Penso hoje que antes da palavra escrita ter uma materialidade, tinha um cheiro e um som que de tão sutis e antigos, só os recordei agora quando escolhi o nanquim como material de desenho.

Depois veio a visualidade: os cadernos de estudo, os planos de aula de minha mãe, as páginas escritas de alto a baixo, as folhas brancas tingindo-se de azul, e se a mesa fosse tocada, derramava-se o azul e tudo tinha que ser refeito para desespero de minha mãe e meu horror porque na maioria das vezes o esbarrão tinha sido meu!

Os livros didáticos da minha irmã, os romances da minha avó, tudo começou a ser visto e tocado por mim.

Passei, por alguma razão que não recordo, a ter direito de folhear, no meu espaço do chão, alguns livros e folhas já escritas, na maioria imagens de revistas. Neste momento passei a inventar minha leitura a partir do que via.

E a criar mais problemas, pois desenhava linhas e traços nos livros.

Eu lembrei outro dia, vendo a obra de João Bandeira, que eu havia estabelecido um jogo de leitura como modo de driblar o que eu não sabia ler. Inventei, naquela ocasião, que os espaços e outros traços e desenhos entre as palavras, traçavam mapas e caminhos a serem percorridos com os fios de lápis colorido, labirinticamente, desviando das palavras postas, com objetivo de chegar ao fim da página sem romper a linha.

As regras do meu jogo de ler um caminho feito de vazios entre as palavras variavam conforme o meu humor e vontade, apostando na enorme vantagem de se jogar sozinha. É claro que tentei compartilhá-lo, mas, quem já sabia ler, não conseguia desviar das palavras tão facilmente.

No ano seguinte, aproveitando a minha ansiedade e o fato de ser filha de estudante do Instituto de Educação, entrei naquela escola e me iniciei no mundo das palavras. Mesmo no pré-escolar, podíamos ir à Biblioteca.

Foi a Biblioteca, com livros em prateleiras inalcançáveis e de cores e tamanhos variados que me proporcionou uma das experiências de visão e cheiro e quase ausência de som, que até hoje ainda me comove. Havia ali uma imperturbável atmosfera de eternidade, naquela sala onde não se viam as paredes, na qual os passos não faziam barulho e se podia ouvir sussurros, vindos não sei bem de onde, se das pessoas ou se dos livros.

No final daquele ano, minha mãe se formou. Eu tinha 4 anos e vestia uma bata branca, com flor no cabelo. Fui ao palco do ginásio com minha irmã e meu pai entregar o anel de azul anil de professora para ela.

Minha mãe passou a usar esferográficas, abandonando de vez as canetas tinteiro para tristeza da minha avó, que as havia comprado.

Aprendi muito bem onde poderia escrever e que livros não eram para ser riscados ou cortados. Ensinaram ainda que só quem poderia escrever livros era o escritor e que frequentar bibliotecas era algo tão sussurrante e grave como entrar de aia em uma igreja.

(Aliás, o piso da biblioteca do instituto foi o primeiro lugar que vi na vida todo acarpetado de vermelho, tal qual o tapete central da catedral.)

Aos poucos as palavras, o uso das palavras, a escrita das palavras, o mundo das palavras, em páginas, em cadernos, com tintas, a lápis, nos livros e por fim, em bibliotecas, passou a entrar no meu domínio e estas memórias de cheiros, sussurros e desenhos incompreensíveis foram esquecidas.

A escola foi ficando longe tão longe da cozinha da minha casa onde eu inventava por prazer, jogos de leitura nas páginas de livros velhos sob o piso desenhado de sol.

ávida de vida



domingo, 15 de novembro de 2009

qual é a sua palavra?


Qual a sua palavra?
Qual a sua voz?
Empreste sua palavra para uma fazer de arte coletivo que contenha todas as palavras e todas as vozes
Sabe aquela frase que não sai da sua cabeça? Escreva aqui
Sabe aquele sentimento que tomou o dia ? Escreva aqui.
O recado para um colega? escreva aqui...
A letra de música que você adora ou detesta? Escreva aqui
A receita perfeita par a a felicidade que veio por um power point musicado.. cole aqui!
Escreva o que quiser, cole o que desejar, componha se expresse..
Registre o seu grito, o seu suspiro, o seu sonho, o seu desejo, o seu olhar....
Não precisa assinar ..
não precisa se identificar..
a fala é sua
a cor é livre
o tom é seu...
a arte é nossa !

terça-feira, 14 de outubro de 2008

SEMENTES ALADAS - POSSIBILIDADES

Obra : Instalação de tecido sobre árvore - Tecido e acrílica

SEMENTES ALADAS - POSSIBILIDADES

Enquanto caminho, compartilho momentos com tantos outros sujeitos de mim mesma (identidades) com quem compartilho o meu copo físico. Velhos conhecidos que chegam – apontam coisas, recordamos de outras – lembramos de sonhos e de sonhares em comum.

Alguns deles que carregam a mania de acolher as semente caídas sobre a terra infértil ou sobre o cimento e asfalto. (lembranças da parábola do semeador – tantas vezes ouvida? Me ocupo com a frustração da semente que nada pode fazer senão confiar que será depositada pelo semeador em lugar possível! )

Quando caminho, escuto os seres possíveis, os potenciais de vir a ser, as luzes que estão contidas nas sementes fechadas e que precisam de um movimento para se revelar.

As sementes - sonhos de vidas diferentes - novas - paralelas - que só surgem - ninguém lhes convida - pensamentos obssesivos que podem secar ser pisoteados ou ser escutados.

As sementes me ocupam – acolho-as – recolho-as, as lanço em lugar fértil – ou trago pra casa – velhas amigas - as guardo em potes de sonho para poderem germinar em gestos, traços e cores nas minhas paisagens de natureza de sonho.

Nesta época – todo o ano - me encontro com as sementes aladas que não conseguiram com sua asa só chegar a um lugar. Então, estão já quase secas mostrando as marcas do tempo – estriadas e quase sem a asa, mas na hora de entrarem na terra. Mas e se ainda estão na calçada ou no cimento? Não serão mais que pó em pouco tempo. É o momento de ser ou de não ser.

Quando toco na semente e sinto o calor latente da vida que se contém à espera, prevejo verdes vidas e cores em flores.

Ao desenhá-las e pintá-las em tecidos transparentes procuro tornar visível a vida em espera - em potencial – vida presente em cada semente-sonho. As asas únicas me lembram da fragilidade e da impossibilidade de controle de pouso. As estrias que vão acastanhando o verde, até quase torná-lo em cor de terra, revelam o tempo, o trânsito e o momento certo de se deixar eclodir em vida.

Brinco de profeta ao mostrar o que pode acontecer, ao revelar o que poderia acontecer, o movimento, a evolução e a revolução contida na semente alada no sonho alado de seres.

Guardei muito tempo as sementes em agendas caixas fechadas, esperando o dia certo de irem pro seu lugar. Hoje as revelo em movimentos ao vento.